O Tosco Desce à Cidade

Para Ir à Entrevistalisboa electrico

Engana-se no número da porta e vai parar a uma morada inexistente, acabando por chegar atrasado. Lá fora estão mais de trinta graus, e eu estou lá fora. As pedras da calçada querem subir-me pelas pernas acima à procura de sombra. No entretanto ando para cima e para baixo à procura do 35. Mas o trinta e cinco não existe, passa do 31 para o 163. Toca de voltar para trás, desta vez é tudo a subir e o sol do meio dia prometeu à lua da meia noite esmagar-me. Parece que hoje é o dia de cumprir a sua promessa. Por mais de uma vez me questiono se serei apenas mais uma personagem num insólito universo de Moebius. Mas eis que me adianto na narrativa.

Depois da conversa telefónica chega o email a confirmar a hora e o local da entrevista, segundo procedimento padrão. Leio o email duas ou três vezes e tomo uma nota mental da morada. A entrevista é na Cidade, daí a dois dias.

Chegado o dia arranjo-me. Aparo a barba, sem que ninguém repare, e engomo a minha única camisa. A das risquinhas azuis. Até me penteio. Tendo o email aberto tento, novamente, imprimi-lo. Sem esperança de sucesso nem convicção peço à velhinha impressora tal favor. Ela faz o que lhe peço. O problema é que o toner acabou três dias antes. No mesmo dia em que o switch kvm deu o berro. Ou o coiso mestre, como preferirem que eu não sou esquisito.

Na ausência da elusiva tinta decido experimentar um método antigo, hoje em dia quase esquecido. Algo que aprendi há muitos anos, na escola do século passado. Procuro um papel e assento a morada. Mas não ponho os óculos. O email é invulgarmente bonitinho (se tal se pode dizer de um email) mas utiliza uma fonte bastante pequena. O suficiente para os meus olhos cansados verem um trinta e cinco onde estava, somente, um cinco.

Chego à Cidade e arrumo o carro com tempo de sobra. Compro o bilhete do estacionamento e sigo para a entrevista. Ainda tenho três minutos para lá chegar, graças ao polícia de trânsito que me atrasou em dez minutos. E então começa a aventura, “Em busca do Trinta e Cinco Sob um Sol de 35º C”.

Até sempre;

SonhosDigitais

NOTA 1: A fotografia pertence ao blogue http://wordcatpress.wordpress.com/2012/03/16/odysseia-lisboa/ e acompanha o poema odysseia (lisboa) e foi por mim emprestadada.

 

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